Cardeal António Marto alerta para “orfandade” espiritual, social e afetiva das sociedades modernas

Foto: Igreja Açores/CR

A humanidade vive hoje um preocupante sentimento de “orfandade espiritual” que só pode ser superado redescobrindo Deus como Pai e remédio para todas as guerras, afirmou esta manhã o cardeal António Marto na homilia da Missa Solene do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

“As guerras, tanto as pequenas como as grandes, têm sempre a dimensão da orfandade. Falta o Pai para fazer a paz. E o maior remédio para curar esta orfandade, social a toda, é a redescoberta de Deus como Pai e a nossa redescoberta de nós mesmos como filhos e, por isso, todos irmãos”, disse o bispo emérito de Leiria-Fátima, na igreja de São José, repleta de peregrinos que já durante a noite ali fizeram companhia ao Senhor.

As condições meteorológicas impossibilitaram a tradicional celebração ao ar livre, no Campo de São Francisco, mas ainda assim para além da Igreja os fiéis puderam participar na eucaristia através de écrans colocados no exterior.

A homilia alertou para a crise de solidão e desorientação da sociedade contemporânea.

“Hoje, no nosso mundo, está presente um grande sentimento de orfandade. Orfandade afetiva, orfandade espiritual, orfandade social. Muitos hoje são órfãos, ou sentem-se órfãos, mesmo tendo os pais vivos”, assinalou D. António Marto.

“As consequências desta orfandade afetiva, espiritual e social são depois aquilo que experimentamos no dia-a-dia: a indiferença, em relação a Deus e em relação aos outros, o vazio interior, o egoísmo, a falta de respeito pela dignidade do outro, a agressividade, que às vezes vai até ao insulto e à violência”, sustentou.

“Que a esta civilização que sofre com um grande sentido da orfandade, conceda a graça de voltar a encontrar o Pai, aquele Pai, Deus, que dá sentido a toda a vida e faz com que os homens sejam uma família, todos irmãos e irmãs, próximos, ternos, compassivos, solidários, semeadores de futuro, para construir um mundo melhor, mais fraterno e mais belo”, disse ainda.

“Meus irmãos, estamos a viver hoje uma certa indiferença religiosa, uma espécie de eclipse de Deus, o esquecimento de Deus e da sua presença na nossa vida”, disse o cardeal português.

“Neste mundo plural e pluralista, hoje já não podemos ser cristãos por mera tradição. Seja tradição familiar, seja tradição cultural ou social. Tem de ser por uma adesão livre e responsável do coração e da mente ao Senhor”, acrescentou.

O bispo emérito de Leiria-Fátima rejeitou uma visão de Jesus como “uma figura de museu” ou “herói” do passado.

“No centro da nossa fé está uma pessoa viva, Jesus Cristo ressuscitado, Deus connosco, com todo o mistério do seu amor infinito, com que se entregou na cruz por nós e nos oferece a nós hoje, concretamente, na celebração da Eucaristia”, indicou.

O presidente da celebração desafiou os fiéis a cultivar atitudes de proximidade e respeito mútuo, transformando o modo de debater ideias num ambiente dominado pela exacerbação.

No início da celebração, concelebrada pelo bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, e pelo núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, além de dezenas de sacerdotes, o cónego Manuel Carlos Alves, reitor do Santuário, saudou os participantes, incluindo todos os que acompanharam através dos media, apelando à “construção de um mundo sem guerras”.

O envolvimento das forças armadas e de segurança foi outra tónica desta celebração, tendo sido os responsáveis pela oração dos fiéis.

A Missa desta manhã, VI Domingo de Páscoa no calendário litúrgico, é um dos pontos altos da festa do Senhor Santo Cristo, cuja imagem deve percorrer esta tarde as ruas da cidade de Ponta Delgada, ao longo de várias horas, numa tradição secular na região.

O percurso passa pelos antigos conventos da cidade e algumas igrejas paroquiais, percorrendo ruas cobertas de tapetes de flores.

A imagem foi oferecida por Paulo III (Papa entre 1534 e 1549) ao primeiro grupo de religiosas Clarissas que quis fundar um convento em São Miguel, tendo-se deslocado a Roma para pedir a respetiva autorização; este ano, estreia a capa número 44, que chegou ao Convento da Esperança no dia 17 de março de 2026, oferecida por Emanuel e Kathy Correia, um casal de emigrantes nos Estados Unidos.

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