Cardeal António Marto desafia fiéis a reconhecer o sofrimento do mundo a partir do rosto desfigurado de Jesus

Foto: Lusa

Ao meditar sobre a cena do Evangelho de João, o cardeal António Marto, que preside às Festas do Senhor Santo Cristo em Ponta Delgada, sublinhou que o “Ecce Homo” revela simultaneamente a fragilidade da humanidade e a sua capacidade de crueldade. Para D. António Marto, o rosto desfigurado de Cristo continua hoje presente nas vítimas de guerra, na pobreza, nos doentes, nos migrantes e em todos os que sofrem injustiça.

“Aquele rosto desfigurado não está longe de nós: vemo-lo no rosto das crianças de Gaza, da Ucrânia, do Sudão… que procuram um pedaço de pão entre as ruínas ou entre o lixo; no rosto das mães ou esposas que olham à janela na esperança de um regresso; no rosto das famílias que perderam um filho e cuja fé sofre mas é indestrutível; no rosto dos jovens que resistem às seduções das drogas, do dinheiro fácil e do consumismo ajudando outros a libertarem-se; no rosto dos doentes que santificam a dor com a fortaleza e a paciência da fé; no rosto dos presos à espera de um perdão e de recuperação; no rosto dos migrantes que atravessam mares e perigos à busca de condições melhores de uma vida digna”, afirmou o bispo emérito de Leiria – Fátima, que preside às celebrações do Senhor Santo Cristo, em Ponta Delgada.

“Ali está o sofrimento do mundo e o sofrimento de cada um de nós”, afirmou, desafiando os fiéis a reconhecer Cristo nos mais vulneráveis.

“Quando contemplamos Cristo flagelado e ferido, não estamos perante uma recordação sentimental do passado, mas vemo-Lo refletido hoje nos que sofrem, na pobreza, na doença, nos lugares de conflitos e guerras”, acentuou.

Contudo, o sermão não se ficou pela denúncia da dor humana. O cardeal destacou que, no centro dessa realidade, brilha a misericórdia infinita de Deus.

“Eis o vosso Deus”, afirmou, explicando que, na figura de Jesus ferido, se revela um amor que não condena, mas levanta e cura. Essa mensagem surge como resposta a um mundo que, nas palavras do prelado, “está a perder o coração”.

“Sem a misericórdia ficamos caídos no chão. “Eis o Homem!”. É um convite a voltar o olhar para Ele com confiança e esperança. Jesus flagelado olha para cada um de nós com compaixão e diz com infinita doçura e firmeza a cada um a palavra dirigida a uma comunidade dos primeiros cristãos, sujeita à violência e ao desprezo: “Eu amei-te” , eu amo-te na tua pequenez e na tua pobreza; na tua pouca força e no teu pouco poder, nos teus passos incertos, nas tuas dúvidas, nas tuas quedas e feridas; mesmo quando não sabes mais pronunciar o meu nome. Mesmo se não contas nada para os poderosos, contas muito para mim. Porque para mim não és um número de estatística, um anónimo no meio da multidão. Para mim és sempre um rosto, um nome próprio, uma vida, uma história, um filho amado ou filha amada desde sempre e para sempre”, indica.

O responsável convidou os fieis a “contemplar com verdade, as violências escondidas, as durezas, os medos”, a que cada pessoa se deixe curar e a “ser misericordioso”.

“Quem foi tocado por este amor não pode viver mais de qualquer jeito. Não se pode sair da presença do Ecce Homo continuando a ferir, a desprezar, a humilhar”, reconheceu.

“Quando sairmos daqui, talvez tudo continue igual, exteriormente. Mas algo deverá mudar dentro de cada um de nós. Ele nos conceda um coração compassivo diante do sofrimento; um coração humilde diante do nosso pecado; um coração decidido à conversão, à transformação do coração; um coração firme na esperança, que não desilude e dá coragem para um futuro melhor do nosso mundo”, finalizou.

O Sermão da Mudança é um dos pontos altos das celebrações, a par da Missa de domingo e da Procissão solene, também no domingo.

A Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres é a maior festa religiosa dos Açores, onde participam milhares de pessoas, incluindo locais, turistas e emigrantes, que se juntam no Campo de São Francisco. É organizada pela Irmandade do Senhor Santo Cristo, que celebrou 260 anos no dia 21 de abril de 2025, e pelo Santuário do Senhor Santo Cristo.

Este domingo às 9h30 a manhã haverá a missa campal e à tarde a procissão pelas principais artérias de Ponta delgada, que ficam cobertas de tapetes de flores por onde passará o andor.

 

 

Scroll to Top