A partir desta sexta-feira, a Imagem `vestirá´ a capa n.º 17, de 1979

Mais do que uma peça de indumentária, esta capa tal como as restantes 43 que integram o espólio artístico do Senhor Santo Cristo dos Milagres, constitui um testemunho de fé, devoção e gratidão, perpetuando a história de um micaelense emigrado nos Estados Unidos da América que confiou ao Senhor Santo Cristo uma das suas maiores aspirações.
Segundo o registo de Hugo Moreira, esta capa foi oferecida pelo micaelense António Correia da Silva, que se encontrava emigrado nos Estados Unidos da América do Norte. Perante as dificuldades que enfrentava para conseguir a sua reforma, fez uma promessa ao Senhor Santo Cristo: caso visse concretizado o seu desejo, ofereceria uma capa à Imagem.
A sua pretensão acabaria por ser deferida. Em sinal de agradecimento, António Correia da Silva enviou o veludo de seda destinado à confeção da capa, concretizando assim a promessa feita ao Senhor Santo Cristo.
A peça foi confecionada na Casa de Trabalho das Religiosas de Maria Imaculada, em Vila Franca do Campo, sob a direção da Irmã Teresita Merino Rodriguez e com a colaboração das principais trabalhadoras daquela instituição.
A Capa n.º 17 foi estreada na Festa do Senhor Santo Cristo de 20 de maio de 1979, passando desde então a fazer parte do património de capas oferecidas à venerada Imagem.
O seu regresso à Imagem, a partir desta sexta-feira, permite recordar não apenas a beleza e o cuidado colocados na sua confeção, mas sobretudo a história humana e espiritual que lhe está associada. Cada capa do espólio do Senhor Santo Cristo encerra uma memória particular — uma promessa, uma graça recebida, uma expressão de agradecimento ou simplesmente um gesto profundo de devoção.
Quase meio século depois da sua estreia, a capa volta a cumprir a finalidade para a qual foi oferecida: vestir a Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres e testemunhar, através do tempo, a fé e a gratidão de um devoto micaelense.
A tradição da imagem do Senhor Santo Cristo inclui o uso de capas ricamente trabalhadas, que cobrem a figura dos ombros para baixo, evocando simbolicamente o manto colocado em Jesus após a sua flagelação. Atualmente, o Santuário dispõe de um conjunto de 44 capas, na sua maioria em veludo ou damasco, bordadas a ouro em alto-relevo, utilizadas de forma rotativa nas procissões.
Entre estas peças destaca-se uma capa histórica do século XVIII, confecionada a partir do brocado do manto de D. João V, oferecido pela Rainha D. Maria Ana, em cumprimento de um desejo do monarca.
A colocação de diferentes capas ao longo do ano tem constituído uma estratégia assumida pelo Santuário para dar maior visibilidade e reconhecimento a este valioso acervo. Esta mudança de capas com maior regularidade resulta de um esforço consciente de preservação, estudo e valorização das obras que, ao longo dos séculos, foram oferecidas como expressão de gratidão e fé por devotos de várias gerações e partes do mundo.
A valorização do património têxtil, inserida numa dinâmica mais ampla de salvaguarda do espólio, reforça a importância de reconhecer as capas não só como peças de arte sacra, mas também como elementos identitários da fé açoriana. Cada capa encerra uma história – de fé, de promessa, e de comunidade – que deve continuar a ser preservada e transmitida às gerações futuras.



