Padre Hélio Soares que a verdadeira santidade é dos simples e humildes que apenas cumprem a vontade de Deus

O sexto dia da tradicional Novena dos Espinhos, celebrado no Convento da Esperança, ficou marcado por uma profunda reflexão sobre a vida e a fama de santidade de Madre Teresa da Anunciada. A celebração foi presidida pelo padre Hélio Soares, ouvidor dos Fenais da Vera Cruz e autor de um livro dedicado ao convento onde viveu a religiosa.
Na homilia, o sacerdote começou por recordar a antiguidade desta devoção. Segundo explicou, há indícios de que já em 1771 a novena dos espinhos era celebrada, depois de as religiosas clarissas terem solicitado a Roma autorização para a festividade dos Sagrados Espinhos da Coroa de Cristo. Em 1772, a Congregação dos Ritos determinou que o ofício fosse celebrado numa das sextas-feiras da Quaresma no Mosteiro da Esperança, decisão confirmada pelo Cabido da Sé de Angra.
“Somos herdeiros desta espiritualidade tipicamente franciscana”, afirmou, sublinhando a continuidade de uma tradição que atravessa séculos.
O tema central da novena é a figura de Madre Teresa da Anunciada, principal impulsionadora da devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. O padre Hélio Soares enquadrou a religiosa na realidade monástica do século XVIII, recordando que viveu em clausura no Convento da Esperança. A cela, explicou, era muito mais do que um simples quarto: era o espaço central da sua espiritualidade, lugar de recolhimento, penitência, oração pessoal e experiências místicas.
Foi nesse ambiente de silêncio que aprofundou a sua devoção ao Santíssimo Sacramento, que, para as clarissas, ocupava um lugar central, bem como ao Espírito Santo, a Nossa Senhora e, de modo particular, à Paixão de Cristo, expressa na sua profunda ligação à imagem do Senhor Santo Cristo.
Ao refletir sobre a santidade, o sacerdote destacou que esta não é privilégio de alguns, mas vocação universal de todos os cristãos.
“Ser santo não é necessariamente fazer milagres, mas confiar a vida a Deus, mesmo no meio das dificuldades”, sublinhou. A fama de santidade, acrescentou, nasce muitas vezes “pela voz do povo”, que reconhece numa pessoa qualidades humanas e espirituais acima do comum. No caso de Madre Teresa da Anunciada, essa fama permanece viva no coração dos fiéis açorianos.
Recorrendo à biografia escrita pelo padre Agostinho de Mont’Alverne e à autobiografia da própria religiosa – documento pouco conhecido e apenas parcialmente publicado – o pregador evidenciou traços claros da sua santidade, em particular a virtude da humildade. Nas suas palavras, Madre Teresa descrevia-se como “pequena formiguinha” e “miserável mulher”, reconhecendo as próprias fragilidades e atribuindo tudo à graça de Deus. Escreveu a sua autobiografia por obediência aos confessores, que tinham consciência da vida espiritual extraordinária que vivia.
Outro sinal dessa humildade foi a recusa em aceitar o cargo de abadessa do convento, apesar de tal representar grande honra numa comunidade numerosa como a da época. Preferiu permanecer no escondimento e no serviço silencioso.
Na conclusão, o padre Hélio Soares recordou que a verdadeira devoção aos santos não se reduz a um sentimentalismo passageiro, mas implica imitar o seu testemunho.
“Ser devoto- disse- é admirar e procurar viver as virtudes daqueles que souberam traduzir o Evangelho na vida concreta”. Os santos, afirmou, “continuam a interceder e são escola de amizade com Deus”.
O sacerdote pediu ainda oração para que o processo de reconhecimento oficial da santidade de Madre Teresa da Anunciada possa avançar.
“No coração dos fiéis, ela já tem fama de santidade”, afirmou, convidando a comunidade a conhecer melhor a sua vida e virtudes, não apenas como memória histórica, mas como modelo atual de vida cristã.
A Novena dos Espinhos prossegue até quinta-feira.



