Quinto dia da Novena dos Espinhos desafia fiéis a sair do comodismo e a transformar a dor em caminho de glória

No quinto dia da Novena dos Espinhos, no Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, o padre Jason Gouveia conduziu os fiéis por uma reflexão profunda e exigente sobre o sentido do sofrimento e da vocação cristã, sob o tema: “Há espinhos que podem chegar a ser luz”. A ce
lebração reuniu irmãos romeiros e numerosos devotos, desafiados a “partir e subir”, numa dinâmica de fé que ultrapassa os limites humanos.
A partir da liturgia deste segundo domingo da Quaresma, que relata a passagem bíblica da Transfiguração , o sacerdote sublinhou que a vida cristã implica movimento: “Partir e subir”.
Segundo explicou, não é possível encontrar a glória de Deus permanecendo no comodismo, “no sofá”, numa vida medíocre e fechada sobre si mesma. É necessário sair, avançar, deixar a própria terra , um gesto que, recordou, traz consigo três espinhos fundamentais: “desafiar-se, desorientar-se e desinstalar-se”.
O primeiro espinho é o do desafio.
“Toda a vocação começa com um espinho”, afirmou. A dúvida, longe de ser ausência de fé, pode tornar-se caminho para uma fé mais madura.
“O espinho que fere o conforto não é castigo, mas promessa: é sinal de que Deus chama a algo maior”, disse o padre que é ouvidor adjunto no Nordeste.
O segundo espinho é o da desorientação.
“Pôr-se a caminho implica, muitas vezes, não saber exatamente para onde se vai. A saída provoca incerteza – “o que vai acontecer?”-, mas é precisamente nesse despojamento que a providência de Deus se manifesta.
“A vocação fere as certezas humanas, mas abre espaço à confiança”, afirmou o padre Jason Gouveia.
O terceiro espinho é o da desinstalação. Sair do lugar habitual, romper com seguranças, aceitar o risco da entrega. Para o padre Jason, sofrer em defesa do Evangelho é penetrar na vida de Jesus Cristo e percorrer com Ele o caminho.
Inspirando-se no Evangelho proclamado, o sacerdote recordou que todo o caminho dos espinhos antecipa uma transfiguração.
“Os espinhos não são apenas sofrimento; são reflexos de luz”, afirmou. Assim como na vida de Jesus os espinhos não tiveram a última palavra, também na vida do cristão a dor não é o fim.
A experiência do “monte”, símbolo da presença e da consolação de Deus , não é para permanecer, mas para sustentar a missão. Tal como a romaria, a novena não é fuga da realidade, mas força para regressar a ela com esperança renovada.
“É bom estarmos aqui”, disse, mas partir significa iniciar a caminhada mesmo sem saber ao certo o destino.
Três atitudes para transformar o espinho em luz
A partir do testemunho de Teresa da Anunciada, evocada como exemplo de perseverança e fé, o padre Jason Gouveia destacou três atitudes concretas para viver a Novena dos Espinhos.
A primeira é oferecer e oferecer-se, transformando o espinho em oração.
“Quando olhamos para este Campo de São Francisco, vemos que cada fiel é convidado a oferecer a própria dor, unindo-a à Paixão de Cristo e fá-lo até com uma certa alegria, como expressão de amor.
A segunda, disse, é confiar. Manter a direção apesar das pressões e ameaças. Teresa da Anunciada, mesmo quando quiseram forçá-la a um casamento que não desejava, permaneceu firme no seu propósito de pertencer inteiramente ao Senhor.
E, finalmente, escutar. Mais do que ouvir, escutar implica obediência e discernimento. Mesmo sem saber ler, Teresa pedia a Deus luz e orientação, vivendo uma escuta concreta e prática do Evangelho no quotidiano.
A Novena prossegue até quinta-feira. Na sexta-feira será celebrada a Festa dos Espinhos.
Este ano o Santuário tem como lema “Que dizes de ti mesmo” e os peregrinos desta Novena são convidados a refletir sobre a sua vida cristã a partir da autobiografia de Madre Teresa Da Anunciada.



