O reitor deixou à assembleia um apelo: redescobrir o sentido espiritual da sexta-feira como dia de entrega, reparação e confiança

No quarto dia da Novena dos Espinhos, a pregação centrou-se num dos traços mais marcantes da espiritualidade da Madre Teresa da Anunciada: o simbolismo e o valor que atribuía à sexta-feira. A reflexão foi conduzida pelo próprio reitor, que partindo da autobiografia da religiosa, recordou que a palavra “sexta-feira” surge 36 vezes ao longo do texto, não como simples referência cronológica, mas como marca espiritual.
Para Teresa, a sexta-feira não era apenas o dia da semana em que a Igreja recorda a Paixão do Senhor; era o tempo privilegiado da manifestação de Deus na sua história.
A sexta-feira da dor e da entrega
“Foi numa sexta-feira que Nossa Senhora perdeu o seu Filho”, recordou o reitor, sublinhando que este dia carrega o peso do sofrimento, mas também a esperança que nasce da entrega total.
A primeira referência autobiográfica à sexta-feira remete para um episódio decisivo: a entrada da irmã Joana no convento de Santo André. Sem recursos para assegurar a entrada como era requerido na época, a solução chega através de correspondência recebida precisamente numa sexta-feira, anunciando que poderia ser admitida.
Outro momento marcante ocorreu quando Teresa procurou dignificar o lugar da imagem do Senhor Santo Cristo, que sofria alguma falta de respeito. A tela pedida a Lisboa chegou numa sexta-feira. Também o célebre milagre do pão aconteceu nesse mesmo dia da semana, tornando-se sinal claro da providência divina.
Madre Teresa desejou inclusive que fosse instituído um jubileu em honra do Senhor Santo Cristo, propondo que se realizasse na primeira sexta-feira de abril, data que coincidia com o milagre do pão e com a inauguração da capelinha. Para ela, a sexta-feira era memorial vivo da ação de Deus.
O reitor destacou ainda um traço essencial: Teresa obedecia ao seu Senhor com radical confiança. Mesmo quando parecia distrair-se ou hesitar, sentia que era o próprio Senhor quem lhe recordava o caminho.
A reflexão não ignorou as dificuldades no relacionamento com algumas religiosas, nomeadamente quando foi repreendida por desejar maior esplendor para o Senhor Santo Cristo, sendo acusada de querer fazer gastos excessivos. Contudo, nessas tensões sobressaem a humildade e simplicidade desta mulher, que nunca procurou protagonismo, mas apenas honrar Aquele a quem pertencia.
Ao concluir, o reitor deixou à assembleia um apelo: redescobrir o sentido espiritual da sexta-feira como dia de entrega, reparação e confiança. Na vida da Madre Teresa da Anunciada, cada sexta-feira era um sinal às vezes de dor, muitas vezes de milagre, mas sempre de fidelidade.
A Novena dos Espinhos, a segunda festa mais importante promovida pelo Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres tem como tema este ano a autobiografia de Madre Teresa da Anunciada a religiosa que impulsionou este culto tão característico da piedade popular açoriana.
