Padre Gil Silva convidou à “vigilância permanente”

No terceiro dia da Novena dos Espinhos, a Igreja de Nossa Senhora da Esperança-Santuário do Senhor Santo Cristo acolheu os peregrinos que foram convidados a fazer da conversão uma prioridade.
O pregador, padre Gil Silva, sublinhou que, diante dos conflitos e dificuldades, o cristão é chamado a um exercício sincero de humildade: “Sempre que surgem problemas, devemos ter a coragem de pensar que, talvez, também nós tenhamos falhado.” Esta atitude, recordou, era própria de Teresa da Anunciada, que vivia numa permanente vigilância interior, consciente da sua fragilidade e da necessidade constante de conversão.
Partindo do quinto mandamento — “não matar” — o padre Gil explicou que Jesus não quer que este preceito seja apenas uma norma exterior, mas uma realidade interior. Não basta não tirar a vida fisicamente; é preciso não ferir, não destruir, não alimentar ódios no coração. O Evangelho desafia a uma transformação profunda, que começa dentro de cada um.
“O coração é o lugar da verdadeira mudança”, afirmou. E essa mudança exige empenho, esforço, “suor”. Tal como alguém que trabalha arduamente para cuidar da sua casa, também a vida espiritual requer dedicação. Deus dá sempre, mas é necessário que o ser humano responda com gratidão e compromisso, sugeriu o sacerdote dehoniano que pregou os primeiros três dias da segunda festa mais importante do Santuário
O tema deste dia – “Os simples recebem de Deus” – levou à reflexão sobre a fé e as obras. A fé é essencial, mas deve traduzir-se em atitudes concretas, em gestos de reconciliação e misericórdia. Não se pode esperar o perdão de Deus se não houver disposição para perdoar o irmão.
A propósito da experiência mística de Teresa, foi recordado um episódio marcante em que, ao aproximar-se do Senhor com amor, ouviu palavras duras que a levaram a um profundo exame de consciência. Longe de desanimar, Teresa reconheceu a necessidade de maior fidelidade e vigilância. Compreendeu que a infidelidade não encontra desculpas e que o caminho é sempre o da conversão sincera.
Foi ainda evocada a figura de Joana, irmã de Teresa, cuja vida também revela um percurso de discernimento e entrega. As suas dificuldades – entendidas como missão e envio – tornou-se sinal de como Deus conduz os caminhos, muitas vezes transformando intenções e destinos. Há, nestas histórias, um fio condutor de confiança e proximidade com Jesus, que escuta, corrige e orienta. Contudo, essa proximidade não dispensa a responsabilidade pessoal. A conversão implica reconhecer o pecado, vigiar o coração e combater o orgulho.
“Baixar os níveis da soberba” foi uma das expressões fortes da homilia, lembrando que muitas divisões persistem porque falta a coragem de dar o primeiro passo.
O padre Gil Silva alertou ainda para o risco de uma religiosidade superficial, que se emociona diante das imagens e celebrações, mas não se traduz em reconciliação concreta com os irmãos. O verdadeiro culto a Deus passa pela transformação do coração e pela capacidade de reconstruir relações.
A imagem do “espinho” foi apresentada como símbolo das feridas que carregamos. Essas feridas, quando entregues a Cristo, podem tornar-se lugar de graça e de mudança. Tal como Teresa, também cada fiel é chamado a deixar que o Senhor entre nas zonas mais difíceis da vida, ali onde custa mais perdoar e recomeçar.
A celebração terminou com um apelo claro: fazer deste tempo de novena uma oportunidade real de conversão, pedindo a graça de um coração simples, humilde e disposto a amar. Porque, como foi repetido ao longo da pregação, só quem aprende a perdoar e a reconhecer as próprias falhas poderá experimentar plenamente a misericórdia de Deus.
A Novena dos Espinhos prossegue no fim de semana já com um novo pregador.


