Mar de fé é o tema do “jardim” do Senhor

Por Paulo Moura, coordenador da decoração do Coro Baixo

 

Nestas ilhas, moldadas pelo fogo dos vulcões e a impiedade das tempestades, onde o mar constantemente abrasa a terra, ora com ternura, ora com fúria, fomentou-se nas gentes a constante incerteza do amanhã, motivada pelo perigo constante dos cataclismos, que alimentaram as preces destes povos insulares (Rosa & Trigo, 1987). Entre as tempestades e a bonança, continuaram a praticar a sua religiosidade, confiantes que, por mais tremores de terras, pestes ou intempéries, havia sempre um sopro Divino a guiar-lhes a vida.

O mar, um dos principais influenciadores da religiosidade açoriana, é a inspiração principal desta proposta para o coro baixo, um “Mar de Fé”, construído com os milhares de flores oferecidas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres pelos seus devotos, em modo de oblação. A alusão ao mar provém, sobretudo, do logótipo do Jubileu 2025. É possível ver, na parte inferior, a representação de ondas em movimento que, segundo as fontes oficiais, representam:

“[…] que a peregrinação da vida nem sempre se move em águas tranquilas. Muitas vezes eventos pessoais e eventos mundiais impõem com maior intensidade o chamamento à esperança.”[1]

Em Mateus 14,22-33, Jesus caminha sobre o mar revolto e convida Pedro a abandonar o barco e ir ter com Ele. Temendo o vento forte, Pedro começa a afundar, mas Jesus estende-lhe a mão, salvando-o. É esse mesmo gesto — firme, silencioso e presente — que queremos evocar neste coro baixo: um convite a todos nós, para que, mesmo no meio das adversidades, ousamos caminhar em direção a Jesus. Que tenhamos a coragem de Lhe responder com confiança, a esperança de saber que Ele nos sustentará, e a fé de seguir os seus passos, guiados pela luz do Seu amor.

Por todo o percurso do coro baixo é possível encontrar arranjos florais que remetem para o movimento do mar, com altos e baixos, e que apontam para o Senhor, o caminho, a verdade, a esperança, o farol e o porto seguro das nossas vidas.

Nas laterais, encontramos vasos de flores, que remetem para a fragilidade humana, e as flores que transbordam do seu interior representam os tesouros que Deus deposita em cada um de nós: A fé, a Graça e a sua Presença. O vaso simboliza a nossa fragilidade, e as flores são um lembrete de que somos portadores de algo que nos foi dado pelo Altíssimo, e que Ele nos chama a ser vasos limpos, escolhidos, disponíveis para o amar o próximo e para a missão que Deus tem para cada um de nós.

Este “Mar de Fé” é um caminho feito de flores e silêncio, de entrega e contemplação. É o reflexo da alma de um povo que, tal como conhece o mar que o rodeia, reconhece também a força da fé nas horas calmas e nas tempestades. As ondas, representadas nas formas dos arranjos florais, falam da vida como ela é — com altos e baixos — mas sempre orientadas para o olhar de Cristo que nos espera, ao fundo, nos protege e guia. Os vasos, frágeis por fora e abundantes por dentro, apontam para a beleza que Deus deposita em cada coração que se deixa moldar por Ele.

Este mar não é apenas um cenário, é um convite. Convite à fé que se oferece, à esperança que resiste e ao amor que transborda. Neste mar, cada flor resultou de uma oração, de um agradecimento. O destino final… é sempre Ele, o Senhor Santo Cristo.

 

 

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