Avivar a memória coletiva

Avivar a memória coletiva

ARTIGO – CORREIO DOS AÇORES

11 de Abril de 2021

Avivar a memória coletiva

 Para uns, é uma mera coincidência de datas, para outros, um sinal divino que Deus mandou aos homens. O certo é que a data de 11 de abril não passa despercebida, porquanto corresponde não só ao dia da primeira procissão em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que terá sido realizada por iniciativa da Madre Teresa da Anunciada, contra a vontade dos superiores, como ao facto de, no mesmo dia, anos antes, se ter operado o conhecido milagre do pão naquele Mosteiro.

As sincronicidades são coincidências que vêm acompanhadas de um significado, pelo que precisamos ficar atentos para que essas coincidências não passem despercebidas.

O termo refere-se às coincidências ou mesmo ocorrências admiráveis que acontecem e podem manifestar-se num sem número de formas, como nomes, números, palavras, símbolos, eventos e datas, como é o presente caso desta data.

Aquele dia 11 de abril de 1700, no segundo domingo do mês, amanheceu carregado de nuvens e com aguaceiros persistentes que pronunciavam que a imagem do Ecce Homo não poderia, nem deveria percorrer os conventos da cidade de Ponta Delgada. No entanto, a persistência confiante de Madre Teresa da Anunciada foi determinante para que o andor do Senhor Santo Cristo transpusesse a Porta do Carro e milagrosamente a copiosa chuva tivesse parado, iniciando-se, assim, a procissão com o apoio da população da ilha.

De facto, na sequência de uma crise sísmica prolongada, e “com o intuito de aplacar a ira divina”, Madre Teresa da Anunciada instava nas suas orações a Deus, junto da imagem milagrosa, para que os abalos de terra parassem. De acordo com documentos da época, mal a imagem surgiu o povo encheu-se de grande comoção e a crise sísmica terá parado.

Por outro lado, o dia 11 de abril de 1698 calhou numa sexta-feira, precisamente quando ocorreu o milagre da multiplicação dos pães, que o grande historiador açoriano Frei Agostinho de Monte Alverne descreve na sua Crónica da Província de São João Evangelista. Tal acontecimento está bastante divulgado em vários livros de diferentes autores está retratado nos azulejos no interior da Igreja de Nossa senhora da Esperança, recentemente restaurados.

De acordo com o Pe. José Clemente, historiador da vida da Venerável Madre

Teresa da Anunciada, transcrevemos parte deste episódio: “em uma sexta-feira, onze de abril se achou a serva de Deus sem pão para o jantar dos oficiais que trabalhavam na capela. Fez os possíveis para o comprar e não o achou, pela grande falta que havia em toda a cidade. Pôs-se de joelhos diante da Santa Imagem em fervorosa oração, alegando o aperto em que se via e com uma santa confiança disse ao Senhor: Como a obra não é minha senão Vossa, a Vós toca remediar esta urgente necessidade. Com esta confiança se levantou da oração, foi ao armário e, assim que o abriu: caso prodigioso!

O achou cheio de pão tão alvo e fresco. Contou a serva de Deus os pães e eram trinta e cinco. Sem demora partiu para o coro para agradecer ao Senhor tão estupendo benefício. Depois passou a comunicar esta notícia à Abadessa, a qual lhe recomendou segredo inviolável. Teresa de S. Nicolau que havia sido testemunha ocular desta maravilha, a fez patente a algumas religiosas e destas passou a notícia a todo o Mosteiro”.

Tal prodígio ocorreu aquando da construção da primeira capela destinada à imagem Senhor Santo Cristo dos Milagres, já que depois ter sido transferida da

Caloura, fora colocada na Ermida de Nossa Senhora da Paz, sita na cerca do Convento e depois mudada para um altar existente no coro baixo. No entanto, não era possível manter o asseio devido, em virtude de muito pó que caía do soalho do coro alto, pelo que foi decidido construir, em 1697, uma capela própria.

Outra data que merece destaque é a de 13 de maio de 1917, dia das aparições

da Virgem Maria a três pastorinhos em Fátima. Ora, não deixa pelo menos de ser curioso que aquele preciso dia, coincidiu com o domingo das festas do Senhor Santo Cristo, aqui em Ponta Delgada. De referir que a devoção de Madre Teresa da Anunciada pelo Senhor Santo Cristo se deve a sua irmã, Joana de Santo António, que lhe fez notar o quanto aquela Imagem era milagrosa, necessitando de ser cuidada e alumiada. Teresa tomou a seu cargo esta tarefa para o resto da vida, o que muito contribuiu para aumentar a sua

fé e devoção. A grande missão que Deus incumbiu a Madre Teresa da Anunciada continua bem viva, ou seja acreditar que tudo o que vem de Deus é bom, deve ser cumprido, mesmo sendo necessário vencer as dificuldades.

Este dia 11 de abril faz precisamente 321 anos que se realizou a primeira procissão do Senhor pelas ruas desta cidade e 323 anos do milagre do pão, pelo que é dia de avivar a memória, quanto a estes acontecimentos nesta ilha de S. Miguel e que importa recordá-los para que este trecho seja sempre guardado nos anais da nossa história insulana.

António Pedro Costa