É PRECISO AINDA UM MILAGRE PARA A CAUSA DA MADRE TERESA

by AÇOREANO ORIENTAL

É preciso ainda um milagre para a causa da Madre Teresa

Cónego Adriano Borges Reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres revela que, em breve será nomeado um postulador para o processo da Madre Teresa d’Anunciada, mas alerta que são precisos pelo menos dois milagres, um para a beatificação e outro para a canonização

Em apenas sete meses, conseguiu que a igreja do Santuário passasse a estar cheia nas celebrações eucarísticas de domingo. Como explica esta mudança?

Quando cheguei, de facto, a igreja não conseguia ficar cheia. E podemos agora dizer que as missas têm estado cheias, quer a das 8h00, mas sobretudo a do meio-dia, ao domingo. Para já, há uma voz nova e diferente a que as pessoas não estavam acostumadas aqui. E depois, as pessoas, hoje em dia, já não se ligam à sua paróquia de origem e, como é muito fácil deslocarem-se, vão à hora que mais lhes convém, à igreja que mais gostam – e a do Santo Cristo reúne uma devoção particular. Tentei, por outro lado, dar mais dinamismo, nomeadamente nos cânticos – conseguimos arranjar um grupo de gente nova, ligada ao Conservatório e a grupos de jovens da nossa cidade e arredores. E isso deu uma nova atitude perante a liturgia e a celebração da eucaristia que, em momento algum, deve ser um momento maçador, um sacrifício, como as pessoas às vezes diziam, mas deve ser uma coisa que nos faça bem, que nos faça pensar na Palavra de Deus, muito encarnada na vida. E que, no fim da eucaristia, as pessoas possam ir para casa com uma mensagem, sobretudo positiva – não queremos contribuir para depressões de ninguém, mas às vezes é importante também “tocar nas feridas” e mexer um bocadinho com a vida das pessoas, para não nos deixarmos acomodar. “A homilia não deve demorar mais do que 10 minutos” – foi o Papa Francisco que disse e eu procuro fazê-lo sempre. Outra coisa muito importante é uma boa preparação e que essa mensagem faça sentido para a vida das pessoas. E depois é o “passa a palavra” de quem vem e gosta. Têm sido bastante positivos estes primeiros meses de trabalho no Santuário.

As festas religiosas começam hoje com o Tríduo Preparatório. Como gostaria que as pessoas as vivessem?

Com um sentido muito grande de espiritualidade. E que aqueles que se desloquem ao Campo de São Francisco, à igreja e ao Santuário do Senhor Santo Cristo nestes dias de festa, sejam ordeiros e respeitem os outros, respeitando a fé de cada um – seja nos momentos das procissões, seja na altura das promessas; e que à volta do Santuário se crie um ambiente propício à oração, introspeção, e assim as pessoas possam honrar o Santo Cristo dos Milagres, mas também expor-Lhe o que vai na sua alma, no seu coração, as suas aflições, amarguras e angústias. Uns aqui virão para agradecer, outros para pedir, e, quer um, quer outro, são momentos importantes para a vida de cada um. E se tivermos isso em mente, com certeza que vamos respeitar todos os outros.

O Papa Francisco, nesta vinda ao Santuário de Fátima, a propósito do culto mariano, questionou os peregrinos se procuram Maria como “a santinha a quem recorrem para obter favores”. No culto ao Santo Cristo, a promessa tem um peso muito grande. Como gostaria que os peregrinos vissem o Santo Cristo dos Milagres?

Há uma diferença bastante grande entre o culto a Maria e o culto ao Senhor Jesus, através da Imagem do Santo Cristo dos Milagres. Jesus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. (…) E eu não acredito que as pessoas venham aqui à procura de um santinho milagreiro. Mas também é normal que, dentro das aspirações maiores das pessoas, queiram que aconteçam milagres nas suas vidas. Mas há uma coisa muito importante: é que às vezes nos esquecemos dos pequenos milagres que acontecem na nossa vida. É verdade que existem muitas contrariedades, a nossa vida não é perfeita (…). E isso é motivo para que as pessoas se aproximem do sagrado, não que o sagrado resolva os problemas individuais de cada um. No Pai Nosso rezamos “seja feita a Vossa vontade” e, às vezes na oração, a gente pede que seja a nossa vontade. Mas não nos podemos esquecer que uma promessa é feita sempre num momento de grande aflição (…), depois da técnica ou da ciência, ou da medicina não conseguir ajudar; ou mesmo quando se conta com a indispensável ajuda da ciência, mas queremos que isso seja abençoado por Deus, para que o Espírito Santo ilumine aqueles que nos tratam. Mas claro que não é um negócio com Deus! Nós é que precisamos de dar, de nos sentirmos gratos. E a gratidão é o que de melhor pode haver na vida das pessoas! (…) Somos mais rápidos a pedir e às vezes quase a exigir de Deus, e mais lentos a agradecer.

Por isso, gostaria que estas festas ficassem marcadas por este sentimento de gratidão para com o nosso Deus.

As promessas no sábado são, para quem assiste, um cenário impressionante. Como se pode compreender esta forma de viver a fé?

Desde sempre, e até nas religiões antigas, o sacrifício físico fez sempre parte da relação com Deus. É uma necessidade do ser humano se auto-sacrificar para obter algo em favor. Podemos partir do princípio que Deus não precisa que derramemos sangue para que Ele nos dê o que a gente precisa, mas quem faz isso é porque precisa, é porque quer… E aí, nem a Igreja, nem os padres, nem as outras pessoas se devem meter. E não pensemos que essa é uma forma primitiva de viver a fé, porque não é! Porque aconteceu e vai continuar a acontecer esta necessidade de se mortificar por um bem maior. E o que vai na alma de cada pessoa não deve ser, em caso nenhum, alvo do nosso julgamento.

A Igreja não promove, mas permite que as pessoas o façam se assim o desejarem, porque a promessa é feita a Deus, não é ao padre, nem a uma pessoa. E a pessoa é que sabe em que momento da sua vida foi necessário fazer aquele tipo de promessa, e depois não se sente confortável se não a pagar – e pagar aqui é no sentido de cumprir o que prometeu.

Contudo, se as promessas – sobretudo estas promessas que exigem um sacrifício físico muito grande – não forem acompanhadas de uma mudança de vida não têm muito sentido. Posso dar a volta ao Campo de São Francisco de joelhos, porque o meu filho estava gravemente doente e prometi fazer isso enquanto pudesse, ou durante um ‘x’ tempo, ou apenas uma vez, isso é ótimo porque me sinto realizado em cumprir o que prometi, mas o tempo em que se faz o percurso à volta do Campo de São Francisco deve servir para meditar sobre o que se pode fazer para ser melhor pai, melhor mãe, melhor filho, melhor cidadão, melhor cristão. Se não for acompanhado do desejo de ser melhor no dia a seguir, o facto de durante meia hora ser penitente não tem muito sentido. Só faz sentido se fizer uma exigência a mim próprio de rigor, seriedade, honestidade, de gratidão, de ser um bom profissional. Tudo isso exige bastante sacrifício e integridade da pessoa, mas durante 365 dias por ano.

Para a afirmação do culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres é necessário que seja dado um novo impulso ao processo de canonização da Madre Teresa d’Anunciada. Com um novo bispo e um novo reitor, acha que estão reunidas as condições para ser nomeado um postulador para esta causa?

Sim. É o passo que vamos dar agora – e só estamos à espera que o bispo faça a nomeação. Está em estudo quem é a pessoa indicada, com disponibilidade e capacidade para isso. Mas dentro em breve será conhecido quem será o postulador da causa. Agora há uma coisa muito importante: a necessidade de haver um milagre.

Não há ainda este milagre?

Nós recebemos, e temos catalogadas e separadas, correspondência e relatos de pessoas que atribuem a Madre Teresa milagres. Mas atenção: um milagre não é eu ser operado, eu rezei a Madre Teresa e correu tudo bem. Não, primeiro temos de dar o mérito à medicina, à tecnologia. Podemos dizer que o Espírito Santo guiou a mão do médico, deu-lhe a inspiração e a inteligência suficiente para que tudo corresse bem. Mas foi ele o responsável.

O que é um milagre? Um milagre é algo que a ciência não pode explicar. E quando a ciência disser que este facto, isto que aconteceu com esta pessoa, eu não consigo explicar, é aí que começa na realidade um processo que servirá para a beatificação da Madre Teresa. Com isto, quero dizer o quê? Primeiro, os médicos, até de preferência se forem ateus, têm de dizer que a ciência não pode explicar (…). O segundo passo é a análise própria daquilo que se passou – e aí já é um processo interno da Igreja e da Congregação dos Santos. E consiste em juntar estas pessoas, os seus testemunhos, saber quem é que rezou, quem é que pediu por intercessão da Madre Teresa d’ Anunciada. E daí a necessidade de divulgar o culto. E depois a Congregação dos Santos é que decide se é milagre e a beatificação.

E, portanto, nenhum destes relatos que chegaram ao Santuário pode ser considerado milagre? Há alguma situação que deva ser investigada para perceber se houve ou não um milagre?

Que eu tenha conhecimento não. Mas toda a correspondência que temos – e que está toda catalogada, toda organizada – também servirá para o processo. Embora nunca venha a ser a “cereja em cima do bolo”. Mas a quantidade de devotos da Madre Teresa também entra no processo, porque é preciso também ter fama de santidade.

É por isso importante que as pessoas escrevam ao Santuário e façam chegar estes relatos…

É muito importante que as pessoas nos relatem o que se passou e não de forma anónima – tem de ser com factos concretos. A fama de santidade, a madre Teresa já a tem. Mas outra coisa são os requisitos necessários para que a Igreja considere Madre Teresa como beata e depois santa. Vamos precisar de pelo menos dois milagres para Madre Teresa ser canonizada – um para a beatificação e outro para a canonização. É um processo longo, é um processo moroso – é um processo que já teve alguns desenvolvimentos, e infelizmente alguns recuos. É um processo que desejo que, muito em breve, dê a sua entrada na Congregação da Causa dos Santos.

Temos no Vaticano, na Causa dos Santos, o açoriano monsenhor António Saldanha. Poderá ser uma ajuda a esta causa?

Vai participar nas nossas festas, e na segunda-feira dará uma conferência com o objetivo de dar um novo vigor a este processo da Madre Teresa. Mas o padre Saldanha por ser açoriano, e por ser da nossa Diocese não poderá intervir diretamente no processo, nem nenhum português. O que é que poderá fazer internamente? É orientar como as coisas funcionam – dizer que documentação é preciso reunir. As orientações do padre Saldanha ajudarão com certeza o postulador. Ele trata das causas em língua portuguesa, mas do Brasil, dos PALOP, mas não trata das causas portuguesas. (…) Só poderia ser postulador no caso de deixar de trabalhar na Congregação da Causa dos Santos.

A decisão será anunciada durante as Festas?

(Risos) Ainda não lhe posso dizer. E por um motivo: a pessoa que aceitar terá de ter uma dedicação quase exclusiva e a pessoa tem de ter consciência de que é um trabalho para alguns anos e que implica deslocações. Pois se tivermos um relato de alguém que esteja nos Estados Unidos ou do Canadá, ou de outro lugar, é necessário ir, ler, analisar…

Nestas festas, as suas primeiras como reitor, há já algumas mudanças. O que achou que devia ser alterado?

A parte interna da organização do Santuário e do Convento é da minha responsabilidade direta, e a parte externa das festas é da responsabilidade da Irmandade. Devo dizer que há um perfeito entendimento e sintonia com a Irmandade – temos tido imensas conversas com a Mesa da Irmandade e temos chegado a consensos (…). Na parte interna, já fiz algumas modificações internas que não são visíveis, mas que funcionarão melhor – embora na essência tudo vá ser praticamente igual. E, desejo muito que estas festas aconteçam, pois quero estar com uma atenção redobrada para que no futuro se possam ainda fazer outras alterações, para que as coisas sejam postas a funcionar melhor. O grande objetivo é sempre servir melhor as pessoas e os peregrinos. Interessa que as pessoas se sintam bem no Santuário, no Campo de São Francisco, na parte profana das festas, e sobretudo na parte religiosa.

As alterações que foram feitas este ano, foram promovidas em conjunto com a Irmandade, e não são de grande significado, nomeadamente a passagem do sábado para segunda do desfile de homenagem ao Santo Cristo. Foi conversada com todos os intervenientes e foi bem aceite. (…) Aproveito para dizer que o trânsito será interrompido na quinta-feira, na zona do Campo de São Francisco, o que vai favorecer bastante as pessoas e promover um ambiente bom, de espiritualidade, aqui à volta do Santuário. (…) Esperemos que haja bom tempo para os dias todos, para que as pessoas tenham oportunidade de rezar, pagar as suas promessas, mas também de se divertir e de conviver uns com os outros.

Paula Gouveia