Santuários são lugares de “acolhimento da fragilidade” e “espaços onde Deus diz que é nosso amigo”

Santuários são lugares de “acolhimento da fragilidade” e “espaços onde Deus diz que é nosso amigo”

ARTIGO – CORREIO DOS AÇORES
21 de Março de 2019

Santuários são lugares de “acolhimento da fragilidade” e “espaços onde Deus diz que é nosso amigo”

Os santuários são um “sinal vivo” de que todos os que mendigamos na vida temos “um colo para nos cuidar” afirmou esta terça-feira o Pe. José da Silva Lima, sacerdote da diocese de Coimbra, que esteve em Ponta Delgada e proferiu a terceira conferência comemorativa do 60º aniversário da elevação do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres a santuário diocesano. A conferência intitulada “Santuário, arte de cuidar”, organizada pelo Santuário açoriano numa parceria com a paróquia de São José, de Ponta Delgada, e com o Instituto Católico de Cultura, lembrou a importância dos santuários como lugares de “acolhimento” e sobretudo de “cuidado da fragilidade” onde “se devolve a esperança” e se “lava a alma”. “Somos peregrinos ao longo da vida, nas nossas ambições e desejos insaciáveis. A vida é uma manta de retalhos que desejamos e cosemos. Quantas histórias escondidas pelos passos apressados que damos, quantas páginas escondidas com o sangue, quantos infortúnios e maleitas que silenciosamente desaguam no santuário aos pés do Senhor entre gestos e preces ao Senhor Santo Cristo, quantas lágrimas derramadas em angústias e canseiras, quantas desventuras inesperadas foram lavadas no santuário, quantas pessoas por aqui passam e saem de alma” interpelou o sacerdote. “O Santuário é sinal de que todos, os que mendigamos novos dias, temos um colo para nos cuidar, e são belos porque nos acolhem e nos acolhem na fragilidade dizendo-nos que Deus é nosso amigo e faz connosco aliança”, afirmou. O Pe. José da Silva Lima começou por lembrar que a história dos santuários, e a deste em particular, é feita de “muitas vicissitudes”, mas é “sempre o Mesmo Senhor Santo Cristo e as marcas de Madre Teresa da Anunciada” que norteiam a vida deste lugar para de imediato sublinhar a necessidade de nos deixarmos contagiar pela atenção e misericórdia de Deus, algo que “sentimos num santuário”. “A vida é uma aventura frágil” que carece sempre da atenção de Deus para quebrar “essa fragilidade” e permanentemente “cuidar” de nós de forma “constante mesmo quando nos perdemos”. Utilizando uma linguagem metafórica, socorrendo-se da figura do oleiro lembrou que Deus “é paciente e cuidadoso”, procurando sempre evitar que nos quebremos. E o Santuário é como que o ateliê Desse Oleiro, onde “permanecemos, atraídos pelas mãos do oleiro”. “Intempéries existem sempre mas precisamos de voltar à casa do Oleiro, escutar a sua palavra e ouvir no silêncio do coração o que nos quer dizer”, afirmou. “Somos vasos frágeis, uns mais frágeis e outros, ainda, muito frágeis e por vezes esquecemos isso” imbuídos de uma certa ambição e arrogância, pensando que somos completamente autónomos. No entanto, “Momentos há em que experimentamos a nossa fragilidade, ou por doença, ou por um acidente ou por lapsos de ADN, por erros de diagnósticos” e por isso “todos precisamos de viver nas mãos do oleiro, sempre e para tal visitamos a sua casa. Há um sentido da palavra de Deus que se colhe apenas na oficina do oleiro e por isso precisa-mos de regressar ao santuário”. “O poder não é nosso mas do Oleiro. O importante é que confiemos nas mãos do oleiro de forma absoluta”, disse ainda. O sacerdote, que falou da sua própria experiência, depois de ter sido acometido por uma doença súbita, que o deixou fragilizado, destacou a importância da ciência e do cuidado humano, técnico e competente mas “sempre finito”, para depois sublinhar a importância desse cuidado ser sempre suportado por uma esperança que decorre de uma relação de confiança e de entrega ao amor de Deus. “O homem e a mulher do nosso século envaidecem-se por obras que parecem deuses, mas isso não é bom. Precisamos de aprender a viver em autonomia segunda, a viver nas mãos do Oleiro, a viver em plena confiança”, enfatizou. ”A sociedade está repleta de sofrimento; a vida impõe-se deixando muitas mazelas, na esteira da vida acontecem desvios que não compreende-mos mas não são fruto do acaso simples, sucedem exemplos menos razoáveis, mas sabemos que nunca compreendemos tudo. A abertura ao mistério da criação e da vida dá força aos cristãos”, concluiu. Do programa festivo do 60º aniversário da criação do Santuário diocesano do Senhor Santo Cristo dos Milagres destaca-se a festa dos espinhos, que termina esta sexta-feira, e uma celebração de ação de graças a 22 abril, no 60.º aniversário do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres da Diocese de Angra. Para comemorar esta efeméride (22 de abril de 1959) realizam-se ainda várias atividades como um encontro de reitores dos santuários diocesanos dos Açores, a 24 de maio, e um simpósio nos dias 11 e 12 de julho, onde D. Carlos Azevedo, do Conselho Pontifício para a Cultura, da Santa Sé, aborda o tema «Viver em Cristo: Pleno humanismo de santidade».