O Santuário toda a gente conhece como uma igreja que está no Campo de São Francisco, mas é muito mais”

O Santuário toda a gente conhece como uma igreja que está no Campo de São Francisco, mas é muito mais”

ARTIGO – CORREIO DOS AÇORES

28 de Outubro de 2018

 

No 60º Aniversário do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres

O Santuário toda a gente conhece como uma igreja que está no Campo de São Francisco, mas é muito mais”

A zeladora da Imagem do Senhor Santo Cristo, Zilda Melo, está há pouco mais de um ano como responsável pela Imagem e já ali viu chegar muitos casos de desespero. Compromete-se em pedir para que todos possam ser ouvidos. As pessoas de mais idade são quem mais procura o Senhor Santo Cristo, mas há muitos jovens que também se sentem bem naquela Casa que abre portas a várias iniciativas exactamente para os jovens. No 60º aniversário do Santuário, apela a todos para que participem.

Arranca já hoje o programa do 60º aniversário da criação do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que se prolonga até 2019, e para quem vive dentro daquela “Casa” que é muito especial não só para os micaelenses, mas para os açorianos em geral, é uma forma de celebração muito especial.

Mais logo na Igreja do Santo Cristo, pelas 15 horas, decorre a primeira conferência sobre “Os Santuários Escolas de Oração”, pelo reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, seguindo-se um momento musical. Será o primeiro momento de celebração desta data especial para o Santuário e também para a comunidade das Religiosas de Maria Imaculada que ali ainda reside. Actualmente são apenas quatro as irmãs que ainda permanecem no Convento da Esperança e para Zilda Melo, a zeladora da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, “é uma honra” celebrar 60 anos do Santuário.

Há apenas um ano e dois meses que Zilda Melo está ao serviço do Santuário como zeladora da Imagem do Senhor mas já se sente integrada e “muito contente” com estas celebrações que vão permitir que todos possam integrar-se nas actividades.

Por isso a zeladora da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres entende que foi “uma ideia muito feliz do senhor Reitor do Santuário ter esta iniciativa. Vai ser um ano em que vai ser oferecida a possibilidade de uma informação, que às vezes não temos, e de uma formação, porque as pessoas que virão cá falar são muito competentes e podem dar muito e nós podemos aprender muito com tudo isso”, explicou.

É que o Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres é muito mais do que aquilo que se conhece. “Toda a gente conhece o Santuário como a Igreja que está no Campo de São Francisco e não se vai mais além. Mas isto é muito mais. É a Igreja Diocesana, é um ponto de chegada e de partida, e acho que devemos celebrar essas coisas. Às vezes celebramos pouco a vida da Igreja e as coisas boas da Igreja” e por isso vê com bastante satisfação estas comemorações. Zilda Melo apela também a todos para que participem em todos os eventos que vão decorrer até Julho de 2019.

“Acho que devemos apostar em participar, em estar, porque isto é para nós. Somos nós que vamos viver os 60 anos do nosso Santuário. Somos nós que vamos celebrar”, afirma. Tudo em nome da Igreja.

Uma vida dedicada a ajudar

Natural de São Jorge, Zilda Melo já conhecia o Convento da Esperança muitos anos antes de ser agora zeladora. Chegou a fazer os 18 anos “nesta Casa”, nos anos 80, onde ficou “nem sei se chegou a um ano”. Na altura estava a preparar-se para seguir a sua formação inicial de vida religiosa e ficou no Convento antes de seguir para o continente. “Não tinha voltado mais a esta Casa”, afirma enquanto já se sente à vontade com toda a envolvência do Convento e da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

“Claro que voltar aqui, voltei muito diferente, com outra perspectiva, com muitos anos passados. Foi uma alegria, e está a ser, estar aqui no Convento da Esperança e com o meu povo, o povo açoriano. É uma maravilha”, descreve.

Passou pelo Convento da Esperança, seguiu para o continente e depois esteve vários anos em Espanha, país onde Santa Vicenta Maria fundou a Congregação das Religiosas de Maria Imaculada. “Uma terra que gosto muito”, explica. Seguiu para o Brasil para uma experiência de sete anos, regressou para Portugal com uma passagem por Roma para formação, e voltou para os Açores.

“São experiências muito fortes, que marcaram a minha vida, mas nenhuma melhor do que a outra. São experiências que nos vão ajudando a crescer, foram experiências da minha vida, muito marcantes e agora estou a viver esta em plenitude”, reforça.

Enquanto zeladora da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres está ainda há pouco tempo, “fez em Agosto um ano”, e conta que até às maiores festas religiosas dos Açores é que contou como uma espécie de “ano zero”. É que Zilda Melo estava “um bocadinho nervosa por causa das festas. Iam ser as minhas primeiras festas, sentia-me aprendiz porque não sabia nada”. No entanto, graças a “uma equipa maravilhosa, saiu tudo bem e foi tudo muito bonito”.

Enquanto zeladora, é a ela que compete tudo o que está relacionado com a Imagem do Senhor Santo Cristo. É à zeladora que cabe a tarefa de tirar e mudar as capas da Imagem, e fazer tudo o resto que está associado à Imagem. “Tudo o que tem a ver com a Imagem sou eu que faço, mas depois sirvo-me de outras pessoas em quem tenho muita confiança e que me ajudam. Nem teria outro sentido se assim não fosse”, explica.

Além de cuidar da Imagem, também cuida para que “tudo esteja digno para as pessoas quando aqui chegam se sentirem bem, acolhidas, sentirem que o espaço é seu, o seu lugar, que é o Senhor Santo Cristo que está ali para eles. Quero que seja um espaço agradável, acolhedor, que as pessoas quando vêm com o seu sofrimento, encontrem ali paz. E acho que encontram”.

E àquele espaço chegam muitas pessoas “na sua dor”. É junto à Imagem que ficam e muitos “saem a chorar mas é um choro tranquilo, não é de revolta. Isso é fruto também da paz e tranquilidade que encontram ali. O meu trabalho é esse, esse acolher, esse preparar, é um trabalho escondido que muitas vezes não se vê mas é sempre em função das pessoas que cá vêm”, explica Zilda Melo.

Trabalho de acolhimento

Esse trabalho que diz ser escondido, é fundamental para quem ali chega. “Há aqui uma vida interna neste Convento, neste espaço do Senhor Santo Cristo que só quem vive aqui é que realmente percebe, sente, sabe e vive”, diz Zilda Melo que lembra que todos os dias, “todos sem excepção, vêm pessoas aqui ao Senhor Santo Cristo. Cada um com a sua história”.

Na maioria das vezes as histórias são de dor, sofrimento e desesperança, mas a irmã da Congregação de Maria Imaculada acredita que há beleza em “sentirmo-nos capazes de acolher essas situações”. Às vezes, conta, não são precisas palavras. “Às vezes acolhemos essas situações, esses sentimentos, com um simples abraço.

A pessoa põe a cabeça no nosso ombro e chora. Não diz uma palavra”, refere.

O outro lado desse acolhimento é essas mesmas pessoas voltarem a agradecer. “Vêm agradecer não só porque aquilo que elas vieram pedir se concretizou, mas às vezes aquilo que pediram não se concretiza, mas apesar disso vêm agradecer porque de alguma forma, e apesar da situação, sentiram o Senhor Santo Cristo na sua vida.

E isso é uma experiência muito bonita, é vida, isso não se pode dizer. Não tenho palavras para expressar isso, é uma vida que se vive aqui no dia-a-dia e isso para mim é importante”, diz. É que esses momentos “também me ajudam na minha fé. Aprendo também com a fé das outras pessoas, isso revitaliza a minha fé e isso é uma experiência muito bonita e que não é explicada, vive-se”, conta a zeladora da Imagem do Senhor Santo Cristo.

A maioria das pessoas que ali chega, com os seus problemas, “até pela nossa forma de vestir, identificam-nos como pessoas orantes” e por isso o pedido que mais se ouve da boca de quem pede algo é que interceda. “As pessoas pedem-nos muito para rezarmos. O grande pedido é “reze por nós”, e Zilda Melo compromete-se com isso diariamente.

“Todos os dias quando chego, o meu primeiro percurso é passar em frente da Imagem porque tenho de preparar o espaço para quando abro a grade para depois da Eucaristia. E tenho sempre uns minutos na frente da Imagem e digo-lhe “mais um dia que temos pela frente e volto a pôr-te no teu coração, nas tuas mãos, as necessidades de tantas pessoas. As orações que nos pedem. Atende-as”.

Não me estou a lembrar esta ou aquela pessoa, peço por todas as que passaram por mim. Acho que as pessoas confiam muito no poder da oração e confiam na minha oração, porque me identificam como Igreja. E isso para mim é um compromisso muito forte e muito sério”, confessa.

O compromisso com os jovens

A maioria das pessoas que entram no Santuário “talvez sejam as pessoas de mais idade”, mas há muitos jovens que também ali chegam e “é uma alegria. Há muitos jovens que passam aqui às vezes são só segundos, mas entram. Entram calados, saem calados, mas estiveram lá”.

Como Congregação de Religiosas de Maria Imaculada “o nosso carisma é essencialmente o trabalho com os jovens. Como diria a nossa fundadora, os jovens para nós são a nossa riqueza. Vivemos os jovens muito de perto”.

E o Convento da Esperança sempre foi uma Casa “de grande juventude” com muitas jovens a ficarem ali hospedadas quando vinham estudar para São Miguel. Esse acolhimento a jovens já terminou e “trabalhamos de outra forma, mas temos para os jovens sempre aquela tendência. Os jovens sentem-se bem com uma religiosa de Maria Imaculada e uma religiosa de Maria Imaculada sente-se bem ao lado dos jovens”.

É por isso que o Convento da Esperança é muitas vezes palco do encontro de fé dos jovens denominado Shalom, organizado pela pastoral Juvenil dos Açores. Para Zilda Melo este movimento Shalom “foi uma descoberta porque eu não conhecia muito bem” e no fundo descreve este encontro que é uma espécie de retiro que decorre este fim-de-semana como “um sítio onde os jovens vêm encontrar-se e descobrir-se a si próprios. É um fim-de-semana duro, porque o encontro connosco às vezes é assim mesmo. É um momento de fé para os jovens”.

A zeladora da Imagem do Senhor Santo Cristo acredita que os jovens açorianos “ainda são muito sensíveis ao religioso, há um terreno aí muito fácil ainda de trabalhar no campo da fé. Estes encontros são para isso. É para despertar nuns, afiançar noutros, ir cultivar noutros, e há toda uma equipa por detrás empenhada em que esta semente vá nascendo no coração dos jovens. Se não formos lá tentar pô-la, ela não vai nascer”. É isso que se pretende fazer com mais um encontro Shalom e com um próximo encontro a ter lugar no último fim-de-semana de Novembro onde haverá um encontro com outros jovens que já participaram na experiência e que agora querem Reviver tudo.

“Esta experiência é muito forte, os jovens saem daqui muito confiantes de que vai mudar a sua vida e com grandes propósitos, mas depois precisam de um acompanhamento porque a vida lá fora não facilita essas mudanças. Ajudar os jovens neste ano missionário. Abrimos o ano pastoral focado na missão, vamos tentar ao máximo atender a estes jovens, dar-lhes estas oportunidades de vida na fé, até porque eles pediram isso no Congresso Diocesano, que a Igreja os ajude a viver a sua fé, a cultivar e desenvolver a sua fé. Os encontros Shalom são isso essencialmente, uma descoberta da fé, e deles próprios”, explica.

É através destes movimentos que se vai mantendo os jovens ligados à Igreja e acaba já por ser quase um encontro de gerações já que “penso que há poucas famílias em São Miguel que não tenham alguém que tenha feito Shalom. Isso é uma maravilha”. E esses jovens são “uma força” na Igreja, reconhece que apesar de não serem as irmãs de Maria Imaculada as responsáveis por este movimento Shalom, “esta Casa é muito carinhosa e os jovens sentem-se bem aqui. Aparecem quando menos esperamos. É uma casa muito especial”.

A vida religiosa cativa?

Apesar de actualmente apenas quatro religiosas ocuparem o Convento da Esperança, Zilda Melo acredita que a vida religiosa “cativa aqueles que se deixam cativar”. Mas reconhece que não é a vida religiosa que tem de cativar, é Jesus Cristo “e nós temos que nos deixar cativar por Jesus Cristo e ver onde Ele nos leva. Há muitos jovens que a vida religiosa ainda lhes diz algo”.

Não como antigamente, quando grandes massas de jovens se dedicavam á vida religiosa, mas hoje em dia aqueles que querem dedicar a sua vida a Jesus Cristo “vão muito convencidos do que querem fazer”. Actualmente há três jovens que terminaram a Universidade e estão a fazer o seu primeiro tempo de formação no continente.

Duas delas são açorianas, uma jovem é natural do Nordeste, outra é natural dos Arrifes e uma outra de Guimarães. “Cada jovem que entra é um rejuvenescer para nós”, diz, contente.

A religiosa apela aos jovens que participem também nas celebrações do 60º aniversário da criação do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres que arrancam hoje e que se prolongam até dia 12 de Julho de 2019.

Carla Dias