Irmãs do Bom Pastor saíram da Diocese do Porto em missão para fazer a guarda da Imagem do Senhor Santo Cristo

Irmãs do Bom Pastor saíram da Diocese do Porto em missão para fazer a guarda da Imagem do Senhor Santo Cristo

ARTIGO – ATLÂNTICO EXPRESSO

16 de Maio de 2022

 

Irmãs do Bom Pastor saíram da Diocese do Porto em missão para fazer a guarda da Imagem do Senhor Santo Cristo

 

Jacqueline Mendes, coordenadora do grupo de irmãs ao serviço do Senhor Santo Cristo dos Milagres da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, mais conhecidas por irmãs contemplativas do Bom Pastor, conta que têm uma missão de oração no Convento da Esperança, assim como têm a seu cargo a guarda da imagem, que este ano sairá à rua dois anos depois de interregno devido à pandemia da Covid-19. As três irmãs, brasileira, equatoriana e peruana, vão viver as festas pela primeira vez e estão expectantes…

Atlântico Expresso: Quais as razões que trouxeram o grupo (três irmãs) aos Açores e, além da oração, como é estar incumbido de ter a guarda do Senhor Santo Cristo dos Milagres?

Irmã Jcquecline Mendes: Somos contemplativas missionárias e a Igreja e a Congregação confia-nos a missão de rezar por toda a gente. Neste caso, nos Açores, mais concretamente em São Miguel, fomos chamadas pela Igreja, através do bispo Dom João Lavrador. Estávamos ao serviço da Diocese do Porto, mas disponíveis para trabalhar em qualquer ponto de Portugal. Aceitamos o convite e viemos, numa primeira fase, fazer uma experiência, um reconhecimento. Depois, aceitamos ficar e fazer uma missão contemplativa, de silêncio e oração, de recolhimento, de escuta e acompanhamento junto dos peregrinos e dos que nos procuram.

Estão disponíveis para a comunidade? Os momentos de oração são partilhados? Vivemos momentos de oração litúrgica, partilhada com as pessoas. Seis meses depois de nos instalarmos já temos parceiras que rezam connosco, principalmente aos Domingos. Isso faz parte do espírito da Congregação. Temos parceiros apostólicos que colaboram nas nossas instituições e os parceiros contemplativos que nos ajudam na parte da oração e que divulgam a missão na família, no trabalho e fazem isso com muito carinho junto connosco.

Rezam pelos que estão na guerra, pelos doentes, pelos pobres … A vossa oração é sob a égide de alguma temática? É uma oração baseada na reconciliação e na misericórdia de Jesus bom pastor, que vai em busca e que restaura a pessoa humana. É uma oração mais direccionada para a reconciliação e misericórdia da pessoa com Deus e consigo mesma.

Estão no Convento da Esperança há seis meses e foi a primeira vez que tomaram contacto com a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, tendo-lhes sido confiada a guarda. Como é que envolveram as irmãs nesta partilha da imagem com os peregrinos? Para nós é um trabalho muito simples e discreto, ao mesmo tempo humilde, porque estamos aqui para zelar pela imagem, assim como temos ao nosso cuidado a abertura e fecho das grades. Também rezamos com as pessoas que passam pelo santuário. É um trabalho muito espiritual, onde favorecemos um ambiente que leva as pessoas a encontrem-se mais com o sagrado.

Como é o vosso dia-a-dia? O nosso dia-a-dia é muito simples, porque também ali trabalha o pessoal que está afecto ao santuário e que faz o seu trabalho de cuidar das flores e da decoração. O nosso é mais para zelar pela imagem, de fazer a limpeza, de trocar a capa e de ter atenção às portas.

Avizinham-se as festas em honra do Senhor Santo Cristo. A vós cabe a colocação da capa que vai vestir este ano, oferta de um casal da Ribeira Grande que vive nos EUA. Como é que estão a viver estes dias de preparação da festividade? Não sei como é a festa porque nunca a vivi, mas imagino como será. Vamos vivê-la com muita serenidade, com muito sentido de fé, porque para nós é tudo muito sagrado. Eu fico acompanhando tudo o que se passa, mas é a primeira vez estou ansiosa.

Quais as nacionalidades das irmãs e por quanto tempo estarão nesta missão no arquipélago? Eu sou do Brasil, a irmã Madalena é do Equador e a irmã Joana é do Peru. Como missionária vim para Portugal por três anos, mas renovei por mais três anos nos Açores. Este é o tempo de uma missionária, porque somos sempre renovadas após seis anos, mas há casos em podemos ir até aos 12 anos. Na Congregação, não temos votos de estabilidade. Vamos para onde é preciso e o tempo difere de lugar para lugar, mas também posso renovar o contrato em Portugal, e isso só se saberá quando terminar a missão. Cada irmã tem o seu tempo e missão.

Antes de estarem na mesma congregação no Porto não se conheciam? Não. Respondemos a um chamado da Congregação da província portuguesa para fazer a missão em Portugal. Fomos colocadas no Porto e a partir da Diocese onde estávamos é que fo[1]mos chamadas para vir para os Açores.

Quando, e como, é que decidiu que queria ser freira? Eu nasci no nordeste brasileiro, no meio de uma família muito simples, tenho sete irmão e eu sou a primeira filha. Desde muito cedo comecei a frequentar a Igreja e logo depois da minha primeira comunhão assumi logo a catequese e, assim, fui dando um sentido à minha vida. Através dos meus avós, que eram muito ligados à Igreja, estive sempre muito perto do sagrado e a envolver-me na pastoral juvenil e na pastoral social. Mais tarde, através de um grupo de irmãs que chegou na cidade descobri que a vida de oração dava mais sentido à minha vida. Percebi que podia fazer muito mais pelos outros. Fui alimentando o meu espírito e aos 18 anos entrei na Congregação por um período de 3 meses e já lá vão 37 anos que estou nesta missão.

Como tem reagido a sua família? A minha família colabora e diz sempre que o importante é que eu esteja feliz.

Esteve como missionária em outros países? Sim, estive em alguns países na América do Sul e na América do Norte e agora estou na Europa.

Qual foi missão mais difícil? Não diria difícil, mas sim a missão em que me senti mais desafiada foi quando estive em Québec, no Canadá, onde existe um clima muito diferente do que estava habituada, assim como foi um desafio a questão religiosa, uma vez que na época, em contexto histórico do país, as irmãs passavam por momentos difíceis. No Canadá, dava o meu testemunho religioso, mas tive de tirar o hábito. Foram sete anos sem o hábito e numa cidade onde as pessoas não tinham tanta liberdade religiosa. Eu pessoalmente não sentia tanta liberdade, mas isso era a nível social, porque as pessoas são muito acolhedoras na Congregação onde trabalhei. Mas isso foi no início, depois de um ano de lá estar habituei-me e consegui integra-me. Posso dizer que, apesar da dificuldade inicial, gostei muito de lá estar e de estar em missão.

Pressupõe-se que tivesse mais dificuldades na América do Sul. No Canadá, foi o desafio, na América do Sul coloca-se outros problemas como a questão dos direitos humanos e da igualdade entre os ricos pobres. E isso também se passa no Brasil, quando falamos de desigualdades sociais.

Como é viver em Portugal? Em Portugal é como estar em casa. Não senti muita diferença com o Brasil. Claro que aqui vive-se uma cultura europeia, mas sinto muitas semelhanças ao nível cultural e também na culinária. A religiosidade também existe, com um povo muito próximo de Deus. Passei algumas vezes no Santuário de Fátima e senti muito essa proximidade e essa fé.

Acha que o povo açoriano é muito religioso? Sinto que aqui ainda é mais religioso. Eu observo as pessoas no Santuário e vejo que têm fé e muita devoção. Para as festas do Senhor Santo Cristo verifica-se que todas as ilhas se mexem e se voltam para esta festa. É muita fé.

Imagina-se numa procissão rodeada de milhares de pessoas? Eu não, mas imagino que seja uma multidão que ninguém conta. No entanto, é bom saber que há pessoas que se aproximam do sagrado, que procuram e alimentam a fé no mundo tão conturbado onde vivemos.

Enquanto missionária, qual seria agora o maior desafio? Gostaria muito de conseguir chamar as pessoas para se aproximarem do sagrado, com espírito de fé, e que conseguissem ser curadas de corpo e de alma. Gostaria que as pessoas não procurassem a cura só para aquele momento em que procuram o sagrado, mas que alimentassem a sua fé no dia-a-dia. Penso que só assim poderá haver um mundo com mais humanidade. É através do sagrado encontro com Deus que a gente se encontra consigo mesmo e com isso podemos atingir as outras pessoas, o trabalho, as escolas, a sociedade.

É de opinião de que a fé pode ajudar a saúde do ser humano… Sim, acho que a saúde espiritual e a saúde física se completam, andam juntas. Se eu estou bem comigo, vou estar bem com os outros e com Deus. Então é Deus, os outros e eu, só assim estamos conectados e poderemos viver num mundo mais tranquilo. No mundo em que vivemos de desejo de paz é importante que tenhamos a paz connosco. A paz tem de partir de mim. Não posso exigir a paz dos outros se eu não estou em paz, porque posso contaminar o ambiente em que estou.

Essa busca interior tem de ser trabalhada, é uma conquista? Sim, é um trabalho e uma conquista. Até à morte estamos lutando connosco.

Nélia Câmara