“Em vez da azáfama da rua e das multidões, este ano será uma festa intimista”

“Em vez da azáfama da rua e das multidões, este ano será uma festa intimista”

ARTIGO – AÇOREANO ORIENTAL

10 de Maio de 2020

 

“Em vez da azáfama da rua e das multidões, este ano será uma festa intimista”

Cónego Adriano Borges. Reitor do Santuário do Santo Cristo fala de como será vivida a devoção sem festa. Afirma que o Santuário irá reabrir com limitação de pessoas em meados de junho e diz que ainda é cedo para definir data e formato da cerimónia de ação de graças com o Santo Cristo

Estamos a uma semana do que seria o dia grande das Festas do Santo Cristo, que este ano vai assinalar-se… Sem festa! Como é que, no seu entender, a devoção ao Santo Cristo pode ser vivida este ano?
Este ano, devido à situação da pandemia de Covid-19, de todos conhecida, a festa irá ser vivida de uma forma completamente diferente e será uma festa em que todos somos convidados a um maior recolhimento.
Ou seja, em vez de vivermos a festa na azáfama da rua, na azáfama da procissão e das multidões, este ano será uma festa mais intimista.
E intimista no sentido em que todos seremos convidados a celebrar a festa em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres de uma forma familiar, em casa e de maneira mais pessoalizada, que também lhe dará maior intimidade.
Claro que esta não é uma situação ideal… Não vamos dizer que sim… A situação ideal nunca seria esta e o normal nunca será este.
Mas desta vez, tendo em conta todas as circunstâncias, é a forma possível que nós temos de viver a festa deste ano.
O Santuário do Santo Cristo tem estado fechado a visitas desde meados de março e só é possível ver a imagem do Santo Cristo pela internet ou através da missa quinzenal transmitida pela RTP-Açores. Já há uma data previsível para a reabertura do Santuário do Santo Cristo às visitas dos fiéis?
Para já, estamos a concluir a obras de restauro dos azulejos da igreja, que só no fim do mês de maio deverão ficar concluídas, eventualmente no início de junho.
Portanto, mesmo em condições normais, o Santuário continuaria fechado e só teria reaberto para as festas.
No entanto, tendo em conta as circunstâncias, tivemos também de encerrar o Coro Baixo, que estaria normalmente aberto para as visitas de pessoas.
Quanto à reabertura, a nossa perspetiva atual é a de que, em meados de junho o Santuário possa reabrir, porque precisaremos também de algum tempo para a realização de limpezas e para nos reorganizarmos internamente, uma vez que os próprios funcionários do Santuário só regressarão a partir do fim de maio.
Mas esta será uma abertura sujeita às restrições emanadas pela Autoridade de Saúde e pela Conferência Episcopal Portuguesa.
Ou seja, vamos poder recomeçar aos poucos com as celebrações e com as visitas ao Santuário, mas de forma a salvaguardar todas as normas de segurança e de saúde.
Vai ter de haver uma limitação de entrada de pessoas.
No Santuário, temos duas portas principais, pelo que as pessoas entrarão por uma porta e sairão pela outra, com acesso limitado de pessoas ao mesmo tempo no interior do Santuário.
Será assim até que as limitações derivadas da pandemia acabem.
As pessoas vão poder voltar a rezar diretamente à imagem do Santo Cristo?
As pessoas irão poder voltar a rezar diretamente à imagem do Santo Cristo a partir de meados de junho, mas ainda não está definido se o poderão fazer no Coro Baixo como até agora.
Seguramente, as pessoas irão poder ver a imagem, seja no Coro Baixo, se assim for possível, seja através da igreja.
Que vai haver visitas, isso está decidido…
Quanto à forma como essas visitas se poderão realizar, ainda é prematuro avançarmos com decisões.
Quando se anunciou a não realização este ano das Festas do Santo Cristo, foi na altura também anunciado que se iria realizar, quando fosse possível, uma cerimónia de ação de graças, com a saída da imagem do Santo Cristo à rua nesse dia. Já é possível agora, passado mais de um mês, avançar com mais pormenores e com a data da realização desta cerimónia?
Ainda é prematuro avançarmos com informação sobre esta cerimónia. Algumas pessoas já fizeram sugestões e, para o Santuário, todas as sugestões são sempre bem-vindas.
O que é seguro dizermos neste momento é que encontraremos uma forma de darmos graças ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Quanto a uma data, também não podemos ainda avançar, porque mesmo que as autoridades nos digam que, a partir de determinado dia já poderemos realizar esta cerimónia, ela não se consegue organizar de um dia para o outro, por mais simples que seja.
Por exemplo, se for necessário limitar o acesso ao Campo de São Francisco, para não se concentrar ali uma multidão, como é que esta situação se controla? Como serão definidas as pessoas que poderão ficar e as que não poderão ficar? Esta seria uma situação muito complicada.
Portanto, neste momento, o melhor é esperarmos e, quando acharmos que estamos já em condições de avançar, nessa altura faremos os preparativos e avançamos.
Tem recebido durante este tempo de confinamento pedidos de fiéis, dos Açores e da diáspora, no sentido de que as Festas do Santo Cristo se realizem este ano, ainda que numa data bastante mais avançada?
Em primeiro lugar, é preciso explicar às pessoas que este ano as Festas do Santo Cristo não se realizam.
Fazendo seja o que for, isso não será a festa, será outra coisa… Será uma outra celebração que não deve ser confundida com a festa.
A festa de 2020 ficará marcada por não ter sido realizada devido a um motivo de saúde pública.
Se já recebi pedidos? Sim… Já recebi, embora não tantos como pensava que iria receber… E recebi, sobretudo, algumas sugestões alternativas: e porque não fazer assim? Porque não o Santo Cristo a percorrer as ruas da ilha toda numa carrinha? Mas nós não iremos por aí, pelo menos nesta altura.
Quando chegar a altura certa, conversarei com o senhor bispo, conversarei com a Irmandade do Senhor Santo Cristo e chegaremos a uma conclusão, que esperemos seja também uma forma de darmos graças a Deus por termos saído de tudo isto e de honrarmos o Senhor Santo Cristo dos Milagres…
Mas será sempre de uma forma diferente.
Os emigrantes açorianos na América do Norte têm enfrentado uma situação delicada com a dimensão que a pandemia assumiu, sobretudo nos Estados Unidos. O Santuário tem recebido muitas orações ao Santo Cristo vindas da comunidade açoriana na América?
Temos recebido muitos pedidos de oração e de proteção para as famílias e comunidades na América.
Mas recebemos também muitos telefonemas aqui no Santuário sobretudo com a dúvida sobre se ainda vai haver festa ou não. Muitos diziam-nos que ‘se houvesse era bom’… Mas sem ligações aéreas, mesmo que houvesse festa, de pouco serviria.
Já está prevista nos Açores a reabertura ao público das igrejas e o recomeço das missas na presença de fiéis, primeiro nas ilhas menos afetadas pela Covid-19 e só mais tarde em São Miguel, que foi a ilha mais afetada. Em junho, já poderemos dizer que estará reposta a normalidade da prática religiosa em São Miguel?
A lei nunca proibiu as igrejas de estarem abertas… O que estava proibido eram os ajuntamentos.
Inicialmente, o que foi pedido pelo Papa e pelos senhores bispos foi que as igrejas permanecessem abertas para que as pessoas pudessem ir rezar.
Claro que, com as restrições, a grande maioria das pessoas acabou por não ir às igrejas.
Contudo, ainda continuam muitas pessoas durante o dia a vir aqui rezar à porta do Santuário.
Outras pessoas deixam velas acesas, quer na imagem de Madre Teresa da Anunciada, quer à porta da igreja.
Portanto, a reabertura depende da evolução do vírus na Região, que tem sido diferente do continente.
E será uma reabertura gradual, a começar pelas ilhas menos afetadas e com celebrações com um número limitado de pessoas.
Se as Festas do Santo Cristo se voltarem a realizar normalmente em 2021, como se espera, acha que irá haver um Santo Cristo antes e pós-pandemia?
Penso que esta dúvida se irá aplicar a tudo o que implicar ajuntamentos de pessoas.
Se houver legislação específica que nos aconselhe a manter alguma distância entre as pessoas ou ao uso de máscaras, essa legislação irá afetar toda a sociedade, civil e religiosa. E não afetará só o Santo Cristo.
Contudo, acredito e tenho esperança que tudo isto vai passar e que nós voltaremos, a pouco e pouco, a uma ‘normalidade’, sobretudo quando surgir uma vacina. Porque enquanto ela não surgir, haverá sempre medo.
Por exemplo, poderemos ter uma procissão maior, com as pessoas mais afastadas entre si? Continuarão as promessas à volta do Campo a serem realizadas da mesma maneira, com as pessoas a tocarem com os joelhos feridos na mesma pedra onde já tocaram os joelhos de dezenas de outras pessoas?
Teremos de repensar a festa, caso tenhamos de ter em conta estas situações.
Mas, por exemplo, a situação das pessoas de joelhos poderá ficar resolvia se todos forem obrigados a usar joelheiras…
Já quanto ao distanciamento nas procissões, tudo irá depender de como estivermos por esta altura em 2021.
Será que iremos participar na procissão de máscara, com um metro e meio ou dois de distância entre cada um?
Tudo isso é difícil de controlar, bem como a situação das promessas na procissão, em que as pessoas estão aglomeradas.
E há também outras questões: por exemplo, como vamos distinguir quem é do mesmo agregado familiar? Porque é que um pai não poderá ir na procissão de mão dada ao seu filho? Não há necessidade de eles irem afastados…
Mas vamos ver… O que estamos a viver agora é tão novo e são tantas as condicionantes que o melhor é ir andando e vendo. Porque se assim não for, não será fácil.

Rui Jorge Cabral