Cardeal Tolentino Mendonça ao Diário dos Açores “Vou ao Santuário da Esperança com o espírito simples e devoto de um romeiro”

Cardeal Tolentino Mendonça ao Diário dos Açores “Vou ao Santuário da Esperança com o espírito simples e devoto de um romeiro”

ARTIGO – DIÁRIO DOS AÇORES

13 de Maio de 2022

 

Cardeal Tolentino Mendonça ao Diário dos Açores

“Vou ao Santuário da Esperança com o espírito simples e devoto de um romeiro”

 

O Cardeal Tolentino Mendonça, que vai presidir às festas do Senhor Santo Cristo na próxima semana, em Ponta Delgada, aceitou falar ao nosso jornal sobre esta sua participação nas maiores festas religiosas dos Açores. José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Nasceu na ilha da Madeira. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018, onde é responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano. Em 2019 foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco.

Como é que recebeu este convite do reitor do Santuário da Esperança para vir presidir às Festas do Senhor Santo Cristo em Ponta Delgada? Foi com emoção que recebi o convite para presidir às Festas do Senhor Santo Cristo, convite que muito agradeço. E o meu desejo é ir até à querida cidade de Ponta Delgada e alcançar o Santuário da Esperança com o espírito simples e devoto de um romeiro. Quero estar entre vós e ser convosco um peregrino da Esperança. A Festa do Senhor Santo Cristo, que tem um lugar tão especial na alma dos açorianos, coloca-nos à escuta de Jesus que diz: «Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, porque eu vos aliviarei». E hoje, em particular, sentimos a necessidade de ir até Jesus. Estamos ainda a metabolizar a experiência devastadora da pandemia, assistimos agora a uma guerra na Europa, as nossas sociedades carregam o peso da incerteza quanto ao futuro, o ser humano sente-se hoje mais vulnerável. Penso em especial na perplexidade e no sofrimento dos jovens. Não nos faltam razões, coletivas e pessoais, para buscarmos nestes dias o olhar consolador do Senhor Santo Cristo, aquele olhar capaz de curar e alavancar a nossa esperança. “Sou de uma família de pescadores” Sendo um madeirense, certamente que atribui importante significado a esta deslocação ao arquipélago vizinho. Como vê esta forte devoção dos açorianos ao Senhor Santo Cristo? Provenho de uma família de pescadores, e como é sabido os pescadores de atum da Madeira fazem temporadas de faina nos Açores. Quando estes homens tornam a casa, uma das recordações que levam é um pequeno oratório do Senhor Santo Cristo. Isso também aconteceu com o meu pai. De maneira que, desde criança, me habituei a ter em casa uma imagem do Santo Cristo e a rezar a Ele em família. Por isso há um afecto antigo e íntimo que me liga a esta alta manifestação da religiosidade do povo açoriano, tão importante para a sua própria identidade. Agradecer aos açorianos o seu testemunho de fé e o exemplo de amor a Cristo Na missa solene do domingo da festa, em que vai usar da palavra, que mensagem vai deixar aos açorianos? A primeira palavra será para agradecer aos açorianos o seu testemunho de fé, agradecer-lhes o exemplo deste seu amor à pessoa de Cristo. Cristo é um amor que não engana. É um amor que amplia a nossa capacidade de amar. Outra palavra será sobre a esperança. Celebrar o Senhor Santo Cristo torna-nos co-responsáveis pela construção, e em tantos casos pela reconstrução, da esperança. Como repete o Papa Francisco, não podemos deixar ninguém para trás ou abandonado. O mundo de hoje precisa de artesãos e de artífices da esperança, capazes de uma visão fraterna da vida. O mundo de hoje necessita de mulheres e de homens activamente comprometidos com essa visão e empenhados criativamente em traduzi-la nesta estação da história.

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